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  • Carol Yu

Resolução de conflitos: o eu e o outro


Recentemente fui convidada para falar sobre choque cultural para um grupo de estudantes estrangeiros que estavam se preparando para a aventura dos próximos 9 meses - tempo de duração do intercâmbio.


E, me fiz a pergunta de qual a importância, ou melhor, relevância deste tema sob o ponto de vista da saúde emocional. Este tema de choque cultural é amplamente discutido sob a perspectiva da comunicação e resolução de conflitos, numa tentativa de analisar as diferenças culturais como eles sendo de fato o objeto de estudo. Ou seja, por exemplo, sabendo que o Brasil é em teoria um país mais afetuoso e expressivo, isso seria o suficiente para que isso sanasse os possíveis conflitos.


Entre a teoria e a prática

Então, fiz o primeiro questionamento: será que saber como o Brasil é (se é que isso é possível dada a sua dimensão geográfica e diversidade cultural e histórica) ajuda no manejo de estresse e conflitos? A resposta é não. Não apenas por ser isso da ordem da teoria e racional, mas porque os esforços estão direcionados aos fatos externos - o outro - e não o que isso pode provocar reações e emoções em mim.


E, como não é possível realmente criar uma fórmula mágica, ou eu seria uma excelentíssima diplomata e ganharia sempre o prêmio nobel da paz, resolvi abordar a temática de outra forma. O que o encontro com uma outra pessoa, diferente de mim (comportamento, língua, valores, percepções, pensamento etc), provoca?


Lidando com o desconforto do que é diferente

Essa resposta eu dou: o diferente provoca desconforto. E, não sabemos muito bem ainda como lidar com essa sensação de inadequação, de desencaixe, de estranhamento, de frustração, medo, angústia, vergonha e vulnerabilidade. Aliás, isso tudo entra dentro de uma bolha gigante que costumamos nomear de “estresse”. Diante deste cenário emocional, muitas pessoas reagem de forma violenta, agressiva, na tentativa de dominar as emoções que incomodam, descontando em pessoas, comida, compras entre outros.


Ou seja, o que gera o estresse não é apenas um fato objetivo externo, se não as emoções difíceis e complexas que são geradas de frustração, falhas, vergonha, medo, impotência e raiva. Com isso, quero apenas trazer uma nova camada de compreensão dos fatores que compõem o estresse. A sobrecarga de um dado trabalho é estressante, pela sobrecarga em si, mas também pela sensação de frustração e cobranças do outro e de si mesmo na tentativa de ser o super-humano e entregar resultados, desempenho e performance.


Estresse e o desconforto emocional

Quando o estresse, ou desconforto emocional é gerado a partir de uma interação com outra pessoa, a resolução de conflitos é um pouco mais complexa, pois além da sua bolha gigante de emoções, tem também a de um outro da qual você desconhece e não tem controle sobre. Agora, se costumamos fugir das nossas emoções desconfortáveis, imagine ter que considerar a de outros! É quase uma ofensa e uma afronta que o outro tente mostrar aquilo que eu tento negar a todo esforço. Não? Percebam então, a raiva e o incômodo gerado a partir de conflitos. Mais fácil apontar dedos, atribuir culpas, responsabilidades e planos de otimização e melhorias.


Não tenho nada contra soluções de compromissos e acordos. Elas são necessárias para o convívio em sociedade. Mas, o respeito pelo acordo e pelo outro, só acontece de forma genuína se eu consigo dar um passo para trás e enxergar o outro como alguém que também sofreu de alguma forma com o conflito gerado. Não é necessário que ele sofra exatamente da mesma forma que você para você poder ter empatia, basta você enxergá-lo também como um ser humano perfeitamente imperfeito com você.


Conviver com outro não é fácil. Perceber que o outro pode ser um espelho de mim, daquilo que tento negar de mais profundo é um exercício de autoconhecimento, aceitação e vulnerabilidade constante. Mas, de que outra forma eu poderia saber quem eu realmente sou?



Notas de neurociência

O manejo do estresse pode ser feito de forma aguda, a curto prazo ou de forma mais demorada, porém duradoura. Em um momento de uma montanha russa de emoções é possível tentar não verbalizar tudo que está passando na cabeça, contar até 10 respirando lentamente. No entanto, é possível reduzir a necessidade de ter que se controlar, com práticas regulares que modificam a sua forma de enxergar os conflitos: reenquadramento da situação, buscar semelhanças entre você e o outro. Quando racionalmente mudamos o foco temos 2 benefícios: acionamos as áreas racionais do cérebro que geralmente ficam inibidas durante o estresse, e aumentamos o foco em características que me ajudarão a resolver o conflito. Use a neurofisiologia a seu favor :)


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