Buscar
  • Carol Yu

Autoafirmação ou Autoconhecimento?


A ilusão do autoconhecimento

Tudo em excesso torna-se indigesto, mesmo as coisas boas. E é preciso tomar um certo cuidado quanto à positividade e autoconhecimento (ilusão de) em excesso, ou até tóxicos. Espero não fugir muito da temática proposta de discutir e fazer pensar sobre a parentalidade atual com este início de texto. Apesar de não ser mãe, recebo no consultório pais preocupados com seus filhos e que muitas vezes já trazem consigo rótulos de “eu sei que sou protetor(a)”, “sei que sou exigente demais”, “sei que trabalho demais”, etc - sem ao menos ter sido questionados, mas o julgamento silencioso a que muitos se impõe é escutado em alto e bom som.


Autoafirmação nem sempre é o mesmo que autoconhecimento

Uma das grandes problemáticas neste tipo de afirmação “eu sou…." é que ela deixa muito pouco espaço para a possibilidade de mudança. E, na maioria dos casos que encontro, ela serve de uma ilusão de autoconhecimento. Como eu me descrevo de forma tão assertiva, então sei como sou e lido com situações.


Autoafirmação nem sempre é o mesmo que autoconhecimento. O primeiro é um resultado, o segundo um processo constante e eterno. O primeiro é muitas vezes uma roupagem ou armadura que usamos para nos proteger de incertezas e vulnerabilidades acerca de nós mesmos. Já o autoconhecimento é a coragem de aceitar que nem sempre sabemos de tudo, nem sempre sabemos o que é o melhor - é compreender e sentir que apesar de quem eu sou, eu sou quem eu posso ser.


E, se nos permitirmos partir da auto afirmação → autoconhecimento, podemos nos possibilitar questionar e fazer as perguntas mais importantes: por quê sou assim? por quê continuou agindo assim? Será que sou assim mesmo (constantemente) ou diante de medos e mal-estares? Será que quero continuar a me sentir assim comigo mesmo?


E a parentalidade com isso? Ah, os vínculos....

O que isso tem a ver com a parentalidade? Acho que é um dos principais processos que “tornar-se pais” provoca - uma outra descoberta de si mesmo, de novas habilidades, novos limites, novos amores e emoções. Mas, se ficamos presos à autoafirmação do que tem que ser, vivemos à sombra de quem já fomos e não à luz de quem podemos vir a ser.


Tornar-se país não deveria ser como uma prova de vestibular constante, em que buscamos acertar o gabarito para passar e ser aprovado como pais. Claro que há dicas e experiências que facilitam a dinâmica pais-filhos, mas isso perpassa pela construção de um vínculo muito particular e único entre dois sujeitos.


E, aqui lembro de uma frase que ouvi na faculdade de uma professora sobre o vínculo terapêutico: “cada atendimento, e cada paciente é único - devemos estar entregues a esse processo único e que não é passível de ser repetido”. E, isso me tocou profundamente. Se pudermos enxergar cada interação e relação com a sua especificidade e caráter único, quem sabe, paramos de tentar buscar o gabarito das relações e replicá-las para todas as outras provas.


“- Sim: Todos são felizes agora”. Nós começamos a dar isso às crianças a partir dos cinco anos. Mas você não deseja ter liberdade para ser feliz de algum outro modo, Lenina? DE um modo pessoal, por exemplo, não como os outros?” (Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley)


Nota de neurociência

Antigamente acreditava-se que as vivências na fase infantil eram tão determinantes para a fase adulta, que o adulto não teria como mudar um padrão de comportamento. Parte desta crença estava atrelada a outra crença errônea que o cérebro adulto não tem capacidade de se modificar. Estudos recentes mostram que os neurônios continuam a aprender mesmo no idoso. O cérebro passa por um processo chamado neuroplasticidade, que é a capacidade de se moldar, criando novas conexões entre neurônios para aprender algo novo. Este algo novo pode ser uma atividade física ou uma mudança de comportamento. O que é preciso para isto? Mudar e treinar, fazer e re-fazer muitas vezes!

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo