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  • Carol Yu

A romantização da família (hétero) e do amor parental




Escrevo este texto em janeiro de 2022, após um período de comerciais mostrando a cena romantizada da “família”, da ceia de natal, das comemorações tradicionais, todos reunidos ao redor da mesa, de cara lavada, com as roupas novas e sorrisos constantes. Fora deste período de férias, vemos comerciais ainda retratando as “famílias margarinas” com uma mesa farta de café da manhã, com todos desfrutando daquele momento ao mesmo tempo, sem celulares na mão, com a família hétero completa como se não estivessem correndo contra o tempo, como se estivessem em perfeita harmonia plena.


O mito da "família margarina" perfeita

Sejamos honestos, quem hoje tem o tempo de desfrutar 1 hora de café da manhã desta forma, e com este bom humor? Sabemos que é uma visão romantizada de família, mas buscamos essa visão harmoniosa mesmo assim (ainda que de forma inconsciente), através de cobranças e culpas pela não perfeição, pelo não alcance desta realidade. Muitos ainda tentam replicar essa versão de momento família aos fins de semana, como se o problema fosse somente a falta de tempo.


O problema com ideais é que eles não representam em totalidade a ambivalência presente na vida natural do homem. A vida e as relações humanas são compostas de amor e ódio, ainda que tentemos ao máximo negar esta realidade - a realidade de que não amamos o outro nem a si mesmo 100% do tempo, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Em um mundo de extremos e positividade tóxica, nos tornamos avessos a reconhecer a parte “negativa” em nós mesmos.

Ambivalência necessária

Eu posso amar o outro e ainda ter raiva do mesmo. Eu posso desejar que meu filho tenha a autonomia e liberdade e ainda me obedeça e me ofereça o lugar de pai/mãe/autoridade. O bebê nasce e com ele vem todas as projeções, expectativas e desejos de uma mãe ou pai. O processo de tornar-se um sujeito, com próprios desejos, vontades, sentimentos e amores é também um processo de despedida dos pais (infantis) que precisam se ressignificar e reaver com a própria história de vida. Alguns pais e mães relatam a dificuldade dos primeiros dias de aula da criança na escolinha, por exemplo, pois é um dos primeiros momentos em que deixam de ter uma rotina centrada na parentalidade recém-formada. Lembram-se que ainda são sujeitos próprios, que sentem emoções fortes de angústias, desamparos, raivas e alegrias.


Idealizações não elaboradas são caldeirões de angústias, frustrações e depressões. É de supra importância que os filhos possam transferir parte do amor para outros objetos futuros, outras relações; assim como é de supra importância que eles possam demonstrar e expressar raivas e desprazeres a quem se deve ouvir. Poder atacar os pais dessa forma, e ainda sobreviver à própria raiva e mal-estar é estruturante para um sujeito - ela não precisa estar excluída e cindida - mas ser parte de si como alguém que permite elaborar a sua própria história constituinte de falhas, faltas e angústias.


Nota de neurociência

Quando as emoções acontecem, são liberados hormônios no cérebro que são diferentes para situações de felicidade, medo e raiva. Mas geralmente os hormônios proporcionam comportamentos para garantir a sobrevivência. Falo isto porque quero enfatizar que não conseguiremos lutar contra as emoções, porque parte delas é fisiológico e natural. Não conseguimos controlá-las. A única coisa que temos controle é o que fazemos com nosso comportamento após as emoções.



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